“Reconheço que todos os Estados actuais, sem excepção, são mal governados… É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual”.
Platão
O Conselho Europeu de Bruxelas, que decorreu entre 16 e 17 do corrente mês, sonhado como fracasso antes da sua realização, tinha por incumbência levar a um acordo os Estados-membros da União Europeia (UE), fundamental no que diz respeito a quatro pontos, como a situação do Tratado Constitucional; Os compromissos assumidos para com os novos futuros membros da UE, nomeadamente a Bulgária e a Roménia, onde se incluía a questão da Turquia; aprovação do orçamento comunitário e as Perspectivas Financeiras para 2006-2013.
O sonho do fracasso, tornou-se realidade, a crise que era política, também passou a ser económica. Mais que uma crise da Europa ou dos cidadãos, deu-se a crise dos políticos. Os políticos têm por obrigação ser fortes, sólidos, consistentes, diplomáticos, flexíveis e maleáveis como os metais preciosos e etéreos e impenetráveis como os gases raros. Não se lhes deve dizer se gostamos mais da sua capacidade de negociação ou das suas crenças, porque nos sujeitamos a que possam mudar as suas ideias numa negociação, menos se lhes deve dizer que partilhamos das suas ideias, porque são capazes de tudo negociar, incluindo as suas próprias crenças e o seu ideário político, e pior nunca lhe devemos transmitir o sentimento de que não saberem negociar.
O fracasso dos políticos europeus, nesta Cimeira, demonstrou que nem são líderes, nem políticos e não têm capacidade para negociar. Nem todos os líderes são dirigentes ou vice-versa, o mesmo é dizer, paladinos de uma causa; como nem todos os políticos são bons governantes, o que significa que não dominam a arte do possível; nem todos os mandatários sabem negociar, o que significa saber chegar a soluções sem agastar ou conflituar com a outra parte.
Os políticos de hoje, são de uma era que começou há cerca de 30-40 anos, e nada têm a ver com aqueles que existiram nas primeiras três quartas partes do século passado, que entendiam que negociar não era um jogo para iniciados, em que o melhor actor de teatro, mais ganhava; nem que o objectivo se traduziam em enganar e mentir sem que os cidadãos se apercebessem notoriamente. Se tivéssemos de definir negociar, seria a intenção como vontade declarada de conseguir consensos, acordos para que todos sejam beneficiados ou prejudicados de forma igual; negociar é abrir caminhos, criar pontes, porque o negócio é realizado com seres humanos, que são portadores de emoções, representantes de diferentes culturas, que têm a responsabilidade que lhes advém da tomada ou não de decisões.
O bom negociador tem de vir ao balcão, para ter a perspectiva, conhecer a outra parte e pôr-se no seu lugar; para tanto, terá de esconder as emoções, clarificar as ideias, estudar as alternativas, ganhar tempo, porque decidir sem realizar primeiro esses pressupostos, a uma mesa com 25 parceiros, nunca foi e será negociar, mas sim um acto de loucura, principalmente quando estão em causa centenas de milhões de cidadãos e os destinos do mundo a ser jogados pelas repercussões que podem trazer. A loucura não consiste em carecer de razão, mas sim querer levar a sua própria razão até às últimas consequências.
Abrindo as páginas dos jornais, ouvindo a rádio ou vendo a televisão, vemos que a maioria dos políticos, diariamente, pratica actos de loucura. A primeira conclusão desta Cimeira, foi um acto de loucura. Pior que tudo isso é termos de falar dessa loucura, como se fosse cometida como plena arte de negociar e perfeito acto político. Se pudéssemos recomendar a quem se mete a político ou em qualquer outra profissão que tenha de negociar por certo, seria a República de Platão e a Política de Aristóteles. Atribui-se a Jacques Delors, que muito nos tem influenciado como comunitarista e que temos o privilégio de o conhecer pessoalmente, uma frase lapidar, das muitas que são produto do seu pensamento, resultado de uma visão extremamente real da UE, e de qual possa ser o seu futuro, traduzido em que “A União Europeia é como uma bicicleta que necessita de avançar ou ser pedalada (pelo ciclista) para não cair”. Para nós, Jacques Delors, é talvez a personalidade que melhor conhece a estrutura e a mecânica da UE. Esta Cimeira, ficará na história como o dia em que as rodas tiveram um furo.
À crise institucional provocada pela recusa do Tratado Constitucional, foi acrescentada a crise económica, dada a incapacidade em aprovar as “Perspectivas Financeiras de 2007-2013”. Mais grave, foi a divisão entre os políticos europeus no Conselho Europeu; a sua falta de vontade para conseguir um acordo e a defesa acérrima dos estritos interesses nacionais. Na Europa não têm lugar as adesões inquebrantáveis a eixos geográficos definidos. A maior parte dos Estados-membros quer pelo seu tamanho e complexidade têm interesses poliédricos.
Portugal por exemplo, recebe fundos agrícolas, não sendo indiferente a reforma da Política Agrícola Comum (PAC), (como não é a França, Espanha, Polónia etc.) fundos estruturais e de coesão, e teria o desejo de destinar os fundos de competitividade no âmbito do “Quando Comunitário de Apoio (QCAIV)”, para a investigação, desenvolvimento e inovação produtiva. Foi patente nos dias da Cimeira o afastamento em relação ao eixo franco-alemão, que não morreu, porque não existe uma alternativa. Se Tony Blair pensa que o vai romper, poderá ser um sonho sem consequência.