“Nous nous sommes réconciliés. Nous nous sommes compris. Nous nous sommes devenues dês amis”.

François Mitterrand e Helmut Kohl

 

Há cerca de dois e meio, mais precisamente em 22 de Janeiro de 2003, o Presidente Jacques Chirac e o Chanceler Gerard Schoeder comemoravam solenemente o quadragésimo aniversário do Tratado do Eliseu celebrado em 22 de Janeiro de 1963 entre a França e a Alemanha, e subscrito pelo Presidente Charles de Gaulle e pelo Chanceler Konrad Adenauer.

Sabemos que os desentendimentos entre a Alemanha e a França foram o motivo de duas guerras mundiais, e cujas causas ainda que mais remotas, podem situar-se em 1871, quando o exército alemão derrotou de forma arrasadora e rápida o exército francês e o Rei Guilherme I em atitude de vitória e com a ideia de humilhar os franceses vai a Paris e coroou-se a si mesmo Imperador no Palácio de Versalhes.

A região da Alsácia – Lorena foi anexada à Alemanha e o ódio entre os dois povos foi instalado. Ódio que tem o seu ponto máximo com o rebentar da I e II Guerras Mundiais.

Apesar de tantos milhões de mortos, da Europa destruída e arrasada em todos os campos por duas vezes, os alemães e os franceses conseguem olhar-se nos olhos e decidem como vizinhos ultrapassar uma rivalidade marcada pelo derramar de muito sangue.

Assim, de inimigos, passam a sócios e parceiros comerciais e em seguida a amigos. Tudo se deveu a esses dois estadistas de peso que referimos, com uma visão única, que pela sua presença marcam uma época.

Hoje a Europa continua sem um rumo definido depois das crises dos “não” francês e holandês ao Tratado Constitucional, da não aprovação do orçamento comunitário para 2007-2013, e da tentativa de liderança inglesa, pela imposição de um novo modelo, essencialmente social e de cariz anglo-saxónico.

Uma Europa fragmentada e dividida sem líderes com carisma para reunir os pedaços da desunião, tenta ver onde encontrar um Charles de Gaulle ou um Konrad Adenauer. Mas na impossibilidade ela irá situar-se na cidadania europeia e serão os cidadãos europeus a decidir o seu futuro na impossibilidade de se reverem em líderes carismáticos que os representem capazmente.

Nesse Janeiro de 1963, esses dois grandes estadistas, que criam nesse dia, o denominado eixo franco-alemão, deram inicio ao processo de reconciliação entre os dois Estados.

O Tratado do Eliseu em vigor até hoje tem como objectivos fundamentais a harmonização das políticas e modelos de segurança e defesa, promovendo o intercâmbio entre as forças armadas dos dois Estados e fortalecendo a cooperação no sector do armamento.

O primeiro desfile militar conjunto foi realizado no local mais simbólico, nada mais que os campos de batalha da I Guerra Mundial, na Província francesa da Champagne. Os objectivos do Tratado são assumidos integralmente e o Presidente Charles de Gaulle tornou-se no primeiro Chefe de Estado estrangeiro a visitar depois da guerra, a Academia de formação de oficiais alemães, tendo na altura o então Ministro da Defesa alemão Josef Strauss afirmado “Se as nossas visões, modelos e ideias do mundo, não são de conflito, como as que tínhamos nos séculos anteriores, e agora actuamos conjuntamente é porque se abriu uma nova era, e estamos felizes por nos situarmos no limiar da mesma”.

Desde 22 de Janeiro de 1963 que os franceses e os alemães se reúnem a todos os níveis, desde o mais alto a nível de Chefes de Estado e Governo, como a nível ministerial e de parceria militar com os soldados dos dois Estados a serem treinados e fazerem exercícios militares em conjunto, a conhecerem a formação e a forma de comando de cada lado.

Uma das formas de cooperação foi o primeiro avião militar a ser construído em parceria na Alemanha, após a II Grande Guerra e denominado por “Alpha Jet”, que resultou da iniciativa do Presidente Giscard d’Estaing (que presidiu à Convenção para o Futuro da Europa, que redigiu o Projecto de Constituição Europeia, em processo de ratificação) e o Chanceler Helmut Schmidt. Mais acções em conjunto têm sido desenvolvidas contando-se entre elas o avião para transporte militar conhecido por “Transall C160” e o “Roland”, míssil terra – ar.

Durante os 40 anos de cooperação os Chefes de Estado e de Governo reuniram 80 vezes e momentos houve, de grande emoção que são lições para o mundo, onde a paz sempre é possível, dependendo da mente e visão de quem lidera um povo, e o mundo pode ver os antigos inimigos de mãos dadas como aconteceu entre o Presidente François Mitterand e o Chanceler Helmut Kohl em memória dos seus mortos no campo da guerra de Verdun.

Actos como estes para além de memoriais visam essencialmente o futuro. Mais quando sabemos que existem cooperações de batalhões de ambas as Forças Armadas sob comando rotativo.

Uma cooperação entre Estados só é possível pelo entendimento dos seus líderes e pelo entendimento da língua de cada um e são incentivados os oficiais franceses a aprenderem o alemão e vice-versa.

Passados vinte e cinco anos após a assinatura do Tratado do Eliseu, o Presidente François Mitterand e o Chanceler Helmut Kohl constituíram um Conselho de Defesa e Segurança Comuns, que foi o pilar de uma nova política de cooperação militar entre os europeus no quadro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN-NATO).

Com o final da Guerra Fria, simbolizada pela Queda do Muro de Berlim, em 9 de Novembro de 1989, a política de prevenção e de superação das crises a nível militar fez alguns Estados-Membros da União Europeia (EU) criarem exércitos conjuntos e constituírem a unidade de intervenção denominada por “Eurokorps” com 56000 homens.

Fazem parte como não podia deixar de ser a França e a Alemanha entre outros. Seria impensável assistir a estes eventos, incluindo antigas tropas invasoras a desfilar novamente em Paris como aconteceu em 1994, na comemoração da tomada da Bastilha em 14 de Julho de 1789., sem a existência do Tratado do Eliseu e a cooperação que se lhe seguiu.

Exactamente na data da comemoração dos 40 anos do Tratado o Secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld, irritado pelas posições e dúvidas do governo francês quanto à eminente guerra contra o Iraque, afirma que as forças franco-alemãs representavam apenas e tão só a Velha Europa, pelo que se supõe que a Nova Europa é representada pelos novos membros da NATO, o que caracteriza a sua idiotice, e uma vez que para ele próprio e para o Presidente George W. Bush a EU não existe.

Novos membros da NATO, que entendiam a situação e geopolítica mundial, que não se limitavam a identificar os perigos, mas sabiam assumir os interesses mútuos com os Estados Unidos. Entre eles Donald Rumsfeld referia-se ao Reino Unido, que pretende liderar a EU e ser alternativa ao eixo franco-alemão, fazendo tudo pela sua fragmentação, e a Turquia que é parte dos problemas internos franceses e alemães e da EU, e que tem como seu defensor, mesmo contra a vontade da maioria dos ingleses, o Primeiro-ministro Tony Blair.

Tudo em defesa dos Estados Unidos e dos seus interesses, mesmo quando quase todos os dias se for preciso o Presidente George W. Bush afirma que quer uma EU forte e unida, quando a sua política é fragmentar e estilhaçar em todas as frentes. Mas os ingleses começam a ver que alinhar com os americanos não traz segurança, e o medo instala-se em Londres e no Reino Unido desde 7 Julho, com as consequentes ameaças.

Angela Merkel em caso de ser Chanceler não irá quebrar o eixo franco-alemão. Pelo que o Primeiro-ministro inglês iniciou uma Presidência do Conselho Europeu dia 1 e a força e energia de conquistar a Europa para os americanos, com base num sonho idealista e sorridente está a transformar-se numa realidade trágica e triste.

Terminamos este tema no próximo escrito dada a sua extensão.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 29.07.2005