II

“I looked the man (Putin) in the eye. I found him straightforward and trustworthy. I was able to get a sense of his soul.”

George W. Bush

 

A libertação da Europa que devia ser uma ode comemorativa ao final do jugo ditatorial e militarista do regime nazi do III Reich, e destinado aos veteranos de guerra, tornou-se numa cerimónia de exaltação de uma outra ditadura tão criminosa como a que foi derrubada, e que é responsável só no período de guerra pelo fuzilamento de 954000 soldados, muitos deles executados pelas costas com idades inferiores a 18 anos, e cujo carrasco não foi o inimigo nazi, mas os seus próprios instrutores e comandantes, cumprindo as instruções que lhe eram transmitidas pelo Chefe Supremo do Exército Vermelho, José Estaline. Essas mortes não convém serem recordadas, não se encontram inscritas em panteão algum da liberdade, nem os 27 milhões de mortos e feridos russos durante o tempo da guerra convém ser lembrados, como ainda não convém ser lembrado o número de judeus russos exportados para os campos de concentração pelos seus próprios pares aquando do Acordo Russo/Alemão que tivemos oportunidade de referir na primeira parte deste texto. Se levarmos tudo isto em consideração e tudo o que se passou a seguir ao termo da Segunda Guerra Mundial, com o bloqueio de Berlim pelos soviéticos e outras experiências de bloqueios sofridos, áreas de dominação, conflitos regionais e tensões armamentistas, esta comemoração foi vergonhosa, e pelo que aconteceu deveriam ser uma barreira a qualquer tentativa retroactiva, e dar lugar a uma cooperação multilateral baseada na democracia efectiva e nos direitos humanos. A melhor forma de celebrar aniversários deste tipo é o mundo ter a certeza e criar as condições para que situações desta natureza não se repitam, quer nas suas causas, como nos seus efeitos. Os Chefes de Estado e de Governo das nações mais poderosas do mundo que se juntaram ao Presidente Vladimir Putin, numa cerimónia de exaltação patriótica que incluiu uma explícita reivindicação do passado soviético; da memória daquele país que desapareceu há quinze anos. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que são como sabemos a Rússia, Estados Unidos, China, França e Inglaterra, e os derrotados da Segunda Guerra Mundial (Alemanha, Itália e Japão) tiveram um papel relevante na cerimónia em que o Presidente Putin pediu que não se tornasse a repetir nenhuma guerra, nem fria, nem quente e que serviu de frase de abertura à primeira parte do nosso texto.

Perante tal desfile, o Presidente americano, por exemplo, faz parte da geração que cresceu debaixo do receio de qualquer dos mísseis nucleares que antigamente desfilavam pela Praça Vermelha, que ameaçavam os Estados Unidos, e a política tem esta hipocrisia subjacente, que apesar de tudo, ali estava na tribuna conjuntamente com meia centena de Chefes de Estado e de Governo a aplaudir as canções patrióticas e vendo as bandeiras vermelhas a esvoaçar. Todos se levantaram à passagem dos veteranos, que dada a idade não podiam desfilar e foram transportados em camiões antigos. O Presidente Putin adoçou os seus convidados, na mensagem que transmitiu a todos os cidadãos russos e que não foi outra, que dizer-lhes, que se devem sentir orgulhosos, de algumas partes gloriosas do seu tempestuoso passado soviético. Ao mundo enviou uma mensagem mais compreensível afirmando que a vitória não foi exclusivamente russa, mas sim dos países aliados e dos lutadores antifascistas de todo o mundo, afirmando “As memórias da guerra transmitem-nos uma advertência, que a indiferença, a contemporização e os papeis de cúmplice com a violência nos levam a inevitáveis tragédias à escala planetária”. O discurso do Presidente Putin era de forma clara destinado ao regime nazi que dominou a Alemanha, ainda que não o afirmasse abertamente em todo o caso, as referências à “vitória da liberdade face à tirania” também podiam ser entendidas como o ponto sensível do que foi a União Soviética na sua faceta mais sinistra de um regime ditatorial e opressivo. Mas nesse dia, ninguém se lembrou de José Estaline, que era o chefe supremo das forças armadas, que conseguiu a vitória que se comemorou, nem dos milhões de cidadãos soviéticos que foram parar aos campos de concentração da Sibéria. Mas nesse dia, Estaline não se moveu da sua tumba, situada por baixo da tribuna dos espectadores, nem Putin se deixou levar pelo entusiasmo face aos seus ilustres convidados, inclusive teve a deferência de receber o Chanceler alemão Schröder e o Primeiro-Ministro japonês, Juinichiro Koizumi, representantes das duas nações derrotadas na guerra, como sinal de normalização de relações. Com o Presidente francês Jacques Chirac, que constantemente segundo o “Le Monde” não parava de se referir ao seu amigo Vladimir Putin, em que este inaugurou uma estátua do General Charles de Gaulle. Esses dias foram de total acalmia em Moscovo, não havendo conflito ou diferença política que fosse capaz de estragar a festa preparada por Putin até ao último detalhe. Nesse dia às 21 horas de Moscovo, toda a Rússia guardou um minuto de silêncio e na Praça Vermelha, realizou-se um segundo desfile, desta vez cívico, com representações da história da guerra, com a participação de actores e bailarinos vestidos com as roupas da época. Em conclusão, o que fez o Presidente Putin foi simplesmente limpar o pó aos símbolos soviéticos e voltar a encher o coração dos russos com o sabor daquela super potência que fazia tremer de medo o mundo. O seu antecessor no cargo, Boris Yeltsin, foi convidado para o desfile militar, mas tal não aconteceu a Mikhail Gorbachov, que Putin o acusa de ter levado o país à destruição. Para os apaixonados da história ficará a cena da condecoração especial ao General polaco Wojciech Jaruzelski, que deu o último golpe de Estado para defesa da ordem soviética num dos seus países satélites. Apesar da nostalgia e sonho de Putin esses tempos são memórias difusas que não voltarão a ser realidade.

Publicado no HojeMacau 20.05.2005