I
“Enfrentamos hoje o perigo real do terrorismo, devemos permanecer fiéis à memória dos nossos pais. O nosso dever é defender uma ordem mundial baseada na segurança e na justiça e uma nova cultura de relações entre as nações que não seja possível, repetir nenhuma guerra, seja ela fria ou quente”.
Vladimir Putin
Sessenta anos se passaram, no dia 9 do corrente, sobre a capitulação ou rendição da Alemanha nazi, considerado como o “Dia da Europa” também, decidido na Cimeira de Milão de 1995, representando o nascimento da Europa comunitária, em virtude de terem sido apresentadas as primeiras linhas da declaração de 9 de Maio de 1950, redigidas por Jean Monnet, comentadas e lidas à imprensa por Robert Schuman a decidirem celebrar esse dia como o “Dia da Europa”. As celebrações oficiais deram-se na Rússia, em Moscovo e na tão conhecida Praça Vermelha, que todos os anos tinhamos oportunidade de assistir pela televisão aquando das comemorações da revolução comunista russa de 1917 e os seus aparatosas exibições do melhor arsenal bélico que a Federação possuia, que desta vez acolheu uma distinta classe de convidados e participantes, da que era habitual na antiga “nomenklatura” soviética e em que desfilava um exército que mantinha ocupada quase metade da Europa, e essa nova classe foram cinquenta Chefes de Estado e de Governo e representantes da comunidade internacional, que recordaram a epopeia do povo russo face à invasão da Alemanha nazi, num gesto de abnegação com intervalos como Estalinegrado ou Kursk, e que do ponto de vista da maioria dos historiadores, tiveram aí lugar as batalhas decisivas para a derrota de Adolfo Hitler. Daí que estas comemorações tenham sido um acto demonstrativo da justiça histórica e moral para com o povo russo, o reconhecimento de vencedores e vencidos, e que a ambos se referiu o Presidente Vladimir Putin, numa mensagem em que o conteúdo se traduziu essencialmente, no facto de que nenhuma das partes ficava excluída das honras da vitória dos aliados. Mas se os participantes e convidados eram diferentes, o “aparatus” e o cenário era idêntico e sinistro, só amenizado pela cor que lhe foi dada, pelas luzes quase violeta dos muros do Kremlin, mas o sentimento de opressão era o mesmo; a paisagem humana com o rosto apagado e hermético de tristeza como o de antes e os gorros dos militares russos enormes e inquietantes como as do antigo exército soviético. Essas imagens viram-se em pormenor pela CNN, e BBC. A denominada Festa da Victória, que o Presidente Putin, de rosto fechado acolheu os convidados para celebrar o sexagésimo aniversáro da derrota da Alemanha nazi, parecia mais uma homenagem ao estalinismo, que aos lutadores da liberdade. Pensamos que todos os convidados pacifistas tenham passado um período de tempo algo incómodo e via-se pelos seus rostos, durante esse impressionante desfile militar na Praça Vermelha, para celebrar a entrada em Berlim, de cerca de sete mil soldados da guarnição de Moscovo, realizado com a precisão e na visão única do exército vermelho, sob o comando do Ministro da Defesa Serguei Ivanov, decorada com bandeiras vermelhas, foices, martelos e retratos de Lenine, que representava toda a iconografia soviética e a grande preparação marcial que caracterizava o regime. O desfile da vitória em versão russa, foi de que os convidados fizeram tudo para danificar o programa das celebrações do Presidente Putin, ainda que tenha sido para ele de uma grave contradição moral. Todos celebraram a derrota do nazismo, mas guardaram um silêncio prolongado face à consolidação do estalinismo, outra ditadura tão implacável, criminal e feroz como a nazi. Nas crónicas publicadas foi recordado os soviéticos que morreram na guerra e os judeus exterminados nos campos de concentação, mas os milhões de vítimas que o comunismo fez ainda não lhes foi reconhecido esse estatuto e a correspondente homenagem, continuando a ser mortos de segunda classe, e essa contradição moral é o pecado mortal que a esquerda radical se nega veementemente a expiar, salvo algumas escassas e honrosas excepções.
Perante essas duas sinistras figuras como a de Adolfo Hitler e José Estaline, no século passado os países europeus experimentaram todo o tipo de estratégias para fugir à loucura da guerra. Há 60 anos foi derrotado o nazismo mas a liberdade foi ganha por fases, em porções limitadas, tendo um custo de várias décadas de Guerra-fria e centenas de milhares de vítimas. No presente, todos estamos empenhados em não aprender algumas lições do passado. Não existe paz possível suportada no entendimento com os inimigos da liberdade; e mais que uma indignidade, é um erro que acaba por fazer vítimas e tanto é válido para a Alemanha, para a Rússia, como para o Iraque, Coreia do Norte etc. Todavia, devemos recordar, que foi uma homenagem exclusiva ao povo russo, que não se confunde com os seus sistemas e dirigentes, que sempre foi um povo sofredor, lutador e forte perante tanta injustiça e contrariedade da história, mas também é transferível ao extinto regime soviético. A História encarregar-se-á na sua função de ensinamento do passado em situar as emoções e os sentimentos no lugar que lhes corresponde, para não se fixar somente nos factos positivos. Este aniversário converteu-se numa ocasião para relembrar os milhões de mortos causados pela agressão nazi, o rigor histórico é audaz para não se esquecer da cooperação activa do Estado Soviético com a Alemanha nazi, no período de 1939 a 1941, constante do Pacto Molotov/Ribbentrop, que se traduziu num entendimento entre os dois sistemas políticos mais criminosos da História e de forma muito conveniente esquecida nos julgamentos de Nuremberga. Em tempo de perdão e de culpa colectiva, como a da Alemanha pelo Holocausto, ou recentemente o do Japão pelas atrocidades na China, falta ainda o da Rússia ao ter dado ao regime nazi o suporte necessário, para a denominada “guerra relâmpago” contra a Europa Ocidental e ter colaborado dessa forma, no maior confronto militar da humanidade. Recordemos que, em 1939, Estaline preferiu aliar-se a Hitler ao invés da França ou da Inglaterra, porque desse modo pode anexar sem oposição o território dos países bálticos e metade da Polónia, ainda que o custo fosse sacrificar a Europa. É compreensível que, para muitos países europeus, a Segunda Guerra Mundial não tivesse terminado em 1945, mas sim em 1989, aquando da queda do Muro de Berlim e da fragmentação do Império Soviético, e que a partir desse “momentum” se começa a dar a libertação definitiva da Europa. Por nós varias vezes citado, noutros contextos, e não tinha passado ainda um ano após o termo da guerra e Winston Churchill, no seu memorável discurso efectuado no Westminster College, em Fulton, Missouri, a 5 de Março de 1946, afirmou “Desde Estaline, no Báltico até Trieste no Adriático, desceu uma cortina de ferro que dividiu o continente”. O Presidente dos Estados Unidos, George Bush, referiu-se durante a sua vista à Letónia a esta extensão dos efeitos sombrios da vitória aliada, desenhados no Acordo de Yalta, onde a necessidade de vencer Hitler a todo o custo, limpou o terreno para a segunda ocupação do expansionismo soviético. Foi o discurso de George Bush, uma forma de denunciar a caducidade da ordem política mundial que surgiu em 1945, no momento em que Valdimir Putin cria uma estratégia onde consta o avanço através de uma política de influência regional que vai muito mais além que a razoável proximidade geográfica e económica. A “revolução laranja” na Ucrânia não deixou de ser uma rebelião pacífica face aos ataques de carácter soviético da política externa russa. Daí que seja necessário separar o elogio que merece o povo russo de qualquer tentação apologista do regime soviético, o qual beneficiou durante muitas décadas da denominação de “luta antifascista” para obter dos intelectuais europeus, da esquerda ocidental e de algumas democracias pragmáticas a absolvição pelos genocídios estalinistas. Existem muitas e sobejas razões para que a cordialidade entre o Presidente Putin e os mandatários das democracias ocidentais, especialmente por parte do Presidente Bush, deva ser o reflexo de algo mais que a amabilidade da comemoração.
JRS in “HojeMacau”, 13.05.2005