“I am impressed by the enormous energy and intelligence of the (Chinese) people”.

Henry Kissinger

A China é um dos países mais prodigiosos do mundo, para além de estar na moda. Ninguém hoje é suficiente rico se não tiver feito uma viagem ao Oriente e em particular ao erradamente considerado “Império do Meio”.

Não se pode considerar seriamente integrado na economia global, quem nunca tenha no mínimo gasto todas as suas economias, passeando pelos “lobies” de hoteis em Shanghai, Cantão ou Shenzhen, na tentativa de encontrar o homem certo no lugar certo, para o tão desejado contacto negocial que abrirá a possibilidade da exportação do primeiro contentor, e o sonho de que num ano se está milionário. Ninguém é suficientemente culto se não tiver lido nada sobre a “Dinastia Ching e Ming”, visitado a “Grande Muralha”, ou o “Exército dos Soldados de Terracota”, em Xian. Ninguém é suficientemente “chic” na terminologia de Eça de Queiróz, se não oferecer um jantar em pratos de porcelana de pintura azul de Cantão, tipo bago de arroz pobre ou rico. Por aí continuariamos o discurso, mas a China é tudo e mais que estas trivialidades ocidentais.

Mais que as viagens presidenciais portuguesas, que nunca passam dos apertos de mão, dos jantares, dos sorrisos, das promessas, das cooperações, dos investimentos que dão em águas de bacalhau. Será mais uma trivialidade perdermos tempo a analisar o que não foi feito, pela simples razão que é típica de nós portugueses e de outros povos idênticos na mentalidade, de querermos conviver com eles, sem conhecer a sua cultura. Estivémos em Macau, sem conhecer a China, e parece que nessa parte escrevemos muito, mas pouco aprendemos. Porque não têm frutificado para além das habituais trocas de mensagens sobre as óptimas relações entre os os dois países, qualquer outro tipo de aprofundamento? Pelo simples facto, de que sempre saimos do Restelo com a ideia da aventura e do passeio, e não da oportunidade e do negócio.

Só que hoje vivemos numa economia global e oportunidades perdidas não voltarão. Somos um povo com um horror tremendo ao investimento. Avançamos se nos garantirem a recuperação do capital, o mais rápido possível e com lucros acumulados de preferência. Gostamos e lutamos pelo lucro sem investimento. Qualquer Banco em Portugal ou agência pelo mundo que dificilmente existe, não entra em jogos de empréstimos ao investimento, nem que do lado onde se investe digam que garantem devolver o dinheiro ao investidor acaso não dê sucesso. Somos uns teóricos surrealistas, que por todo o mundo, aprendemos desde marear a voar, mas não aprendemos a negociar. Conhecemos o negócio, mas não somos capazes de entrar nele, e se alguém consegue vencer esse medo genético, vem o compadre do lado fazer tudo para desgraçar o negócio ou retardar o lucro. Este tipo de mentalidade que nos caracteriza como povo, está fora de moda, e por estarmos numa moda que nunca existiu, vamos morrendo sufocados por uma economia que quase nada tem para oferecer nem interna nem externamente. Não existem poções mágicas. Apenas temos de deixar o nacional porreirismo e o nacional sacanismo e assumirmos o papel sério que nos compete na história e no mundo. Esse assumir passa pela China, porque o lucro faz-se na economia, não na política, e a “land of oportunity” está nesse imenso país.

Perdemos 500 anos para saber como negociar? Perdemos 500 anos para saber como nos relacionar, cooperar, e investir? Macau não fugiu nunca aos portugueses, porque nunca lhes pertenceu. António Enes no final do século XIX, já dizia que Macau era governado por Macau e pelas suas gentes no seu livro “Moçambique”, que ao fim e ao cabo é uma das máximas da Lei Básica. Conceitos do passado, reinventados? A história repete-se? Um pouco de tudo. Vamos dar um salto aqui ao lado, e ver o que se passa. No ano passado, a China foi pela primeira vez o país mais falado e divulgado no mundo, em termos de notícias, sendo seguido pelos Estados Unidos. Há dias voltou a bater um recorde que assombrou o mundo, que foi o de ter alcançado 1.300.000 milhões de habitantes, não esquecendo que nessa data o “The New York Times” afirmava que o país reconhecia em privado, que talvez existissem pelo menos outros 80 milhões adicionais de cidadãos não registados, que é o mesmo que ter uma Alemanha escondida, nas zonas rurais do interior, por medo das multas e outras medidas por desobedecer à política do filho único.

Apesar destas revelações da referência americana ficar por confirmar em termos oficiais, é por demais saliente, que as estatísticas põe em evidência a força emergente do que se poderia apelidar como no começo da Guerra Fria foi chamado à União Soviética acerca do seu poder militar, de “descomunal colosso”, no caso em termos económicos.

A China do presente e do futuro é sinónimo de oportunidades e cada vez são mais os que fazem por chegar a esta parte longínqua do Oriente, sabendo que se o negócio sai de feição, poderão pensar em negócios de maior envergadura. Há cerca de 15 dias a União Europeia (UE) publicou os dados relativos às suas relações comerciais com o exterior e por eles passámos a saber, que é o principal parceiro comercial da China, tendo em 2004, nas trocas comercias atingido 160 biliões de euros, equivalente a 210 biliões de dólares, o que significa um aumento de 35% em relação a 2003.

As previsões para este ano são de aumento superior. A oportunidade que falamos não é só de natureza económica, mas o que ela representa para a cultura, para o desporto, para a política etc. Nós estamos em Macau que é, foi e sempre será China. A China teve sempre a porta aberta para Portugal, nós é que por vezes não sabemos passar pela porta e preferimos as janelas. Macau foi, é e será a porta não só de Portugal para a China, mas de outros países. Portugal tem a vantagem de conhecer Macau, ter a amizade chinesa, ter portugueses no seio da administração pública e em vários sectores da vida. Portugal está inserido no espaço do maior parceiro comercial da China, mas a sua posição com tanta vantagem é diminuta. Existem bolsas onde pode liderar a UE através de Macau na China, usando a mais valia portuguesa existente.

A promoção da cooperação entre Portugal e a China deverá ser feita a nível regional e nunca nacional, com as representações estabelecidas em Macau. Portugal tem por dever ser o primeiro a promover, cooperar e estimular os eventos chineses na Europa e adentro da CPLP, ao qual Macau deve pertencer, como os Jogos da Ásia Oriental, dos Jogos Olímpicos de Pequim, etc.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 04.03.2005
* Dada a extensão do texto foi publicada a parte restante no dia 11.03.2005.