120 anos do nascimento do filósofo

Fez no dia 23 de Fevereiro 120 anos, sem que o mundo o tivesse recordado, que nasceu, em Oldenburg, Alemanha, o grande filósofo alemão Karl Jaspers que, ao contrário de Martin Heidegger, foi um opositor do nazismo, e manteve a necessidade do reconhecimento recíproco entre os individúos e os povos. A sua concepção de Estado como uma entidade de justiça e solidariedade é hoje uma aspiração de candente vigência.

Karl Jaspers não só tem uma prolífica obra de criação filosófica. Documentou a sua construção com tamanha minuciosidade que dificilmente exista entre os seus biógrafos, alías muito poucos, quem possa acrescentar algum dado significativo ao que ele mesmo disse sobre a sua vida e o seu trabalho.

Desde a sua história familiar até aos seus hábitos de escrita, desde os passos seguidos na sua trajectória académica até às tensões impostas e a satisfação brindada pelo seu exílio na Suiça, tudo consta nos seus livros testemunhais, incluindo a amizade com Hannah Arendt e o distanciamento com Martin Heidegger, sem excluir a esgotante e longa enfermidade de que padeceu na sua juventude. Poco é, o que resta por descobrir neste terreno.

Muito, ao contrário, parece-nos que haveria que reconsiderar relativamente à sua actual inscrição na história da filosofia.

Jaspers não teve o reconhecimento com o qual contam outros autores alemães que foram seus contemporâneos. O seu prestígio está longe de ser o de Edmund Husserl, o seu renome não é o de Martin Heidegger, o de Walter Benjamin ou o de Ludwig Wittgenstein, que superam amplamente a procura do interesse colectivo.

Há cerca de seis meses que se perfizeram os cento e vinte anos do seu nascimento. Pesquisávamos a sua obra para estudar determinada área da sua teoria relativa á culpa, quando nos deparámos com a citada data. Após pesquisas efectuadas nem as ciências políticas, nem a psicoanálise, nem as tendências espistemológicas, nem as correntes filosóficas fundadas na fenomenologia, nem aquelas que buscam diagnosticar os sintomas da pós-modernidade parecem ter encontrado estímulo nas suas ideias. Parece que o mundo e os académicos se esqueceram que o mundo das ideias foi feito por pessoas com a estatura mental e emocional de Karl Jaspers. Que vivemos um mundo de intelectualidade ignorante, que não é necessário matemáticos, filósofos, físicos, economistas, juristas fazerem anos da sua morte para se falar deles ou não se falar como é usual. É dever de todos, transmitir por todos os meios, a história dos percusores das ideias e das correntes que fizeram a nossa civilização ocidental como diria Samuel Hutington no seu Clash of Civilizations. Sem eles hoje não estariamos aqui compartilhando um mundo de modelo diferente ao por eles desejado, em muitos domínios.

Cabe esperar, portanto, que este aniversário como tantos outros ao longo do ano, transcorra no meio de uma cortês indiferença ao autor da culpabilidade alemã. Para desgraça de muitos talvez, não há na sua trajectória pessoal contradições significantes, nem segredos que, ventilados, resultariam rentáveis para o periodismo pela sua dose de escândalo virtual ou a maré de questões e suspeitas que poderiam desatar a sua divulgação.

Estima-se de forma pouco menos que unânime, que a de Jaspers é uma perspectiva mansamente submetida ao idealismo e ao humanismo clássicos do século XVIII. Tais características imporiam, por consequência, limites insalváveis ao seu valor filosófico.

Sua seria, segundo se crê, a convicção de que o homem possui uma essência impermeável aos condicionamentos históricos, cujos ingredientes, igualmente inalteráveis, seriam a razão e a liberdade, tal como o iluminismo as postulou. Um matiz eurocêntrico e com disfaçatez burguesa condicionaria, para mais, o alcance do seu conceito de cultura e a sua visão do social, e nele de tal forma, que ambos ficariam hipotecados num universalismo abstracto de Herder e na ética glacial de Emmanuel Kant.

Para completar este quadro de indigências há que recordar que a esquerda do seu tempo, a dos anos da segunda pós-guerra, não vacilou em o rotular como reaccionário, pelo seu alinhamento com o Ocidente e da sua critíca implacável ao mundo soviético. Vale a pena, não obstante, ponderar a consistência efectiva do conjunto destas acusações debaixo da luz, de que sobre a filosofia de Jaspers, jogam-se os dilemas do presente.

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, Jaspers começou a ser frequentemente consultado pelas forças aliadas da ocupação. No exterior havia trancendido a sua posição antinazi, mantida com serena perseverância e coragem ao largo dos doze anos que durou o regime.

No seu tempo, as diferenças com Hitler valeram-lhe a expulsão da Universidade. Pouco faltou, que pelo facto de estar casado com uma judía lhe custara a vida. Tudo fazia como sendo uma referência obrigatória para quem se empenhava em desenhar as bases da reconstrução política da Alemanha.

Os americanos, em particular, desejavam, substituir quanto antes, as personalidades alemãs por eles designadas para uma administração transitória. Queriam marcar posição prematuramente relativamente a um governo de partidos saído da votação nas urnas e, portanto, de extracção democrática. Jaspers não concordou com esta urgência.

Via nela um gérmen de uma nova catástrofe. Na sua autobiografia filosófica adverte: "Vocês (americanos) tomam um caminho que é trágico para a Alemanha. As melhores personalidades do país serão substituídas pelos velhos de partido que antes de 1933 demonstraram a sua ineptidão. Deveriam vocês (americanos) administrar abertamente esta Alemanha, debaixo da sua própria responsabilidade, por orientação dos alemães de maior capacidade, cordura e patriotismo.

Acrescenta, assim, o processo educativo que nos tem sido negado pela história poderá, pelo menos, começar por certo grau de independência alemã até ao final. Esta educação não se logra leccionando, dando conferências e publicando escritos que elogiam as excelências da democracia, mas única e exclusivamente pela prática. Entre nós (alemães) ainda vigora o princípio de que a autoridade manda e as massas obedecem. O certo é que hoje a Alemanha não pode ser governada pelos seus melhores políticos, mas pelos que poderão surgir ao cabo dos anos e de eleições livres.

Afirma implantar desde cima a democracia baseada no jogo dos partidos políticos, quando falta no presente a sua premissa na consciência da população e a oprimida maioria dos alemães nem sequer sabe o que quer dizer na realidade, nem quem devem eleger, significaria pôr em lugar da autoridade dos alemães escolhidos por vocês (americanos), a dos dirigentes e burocratas do partido".

Os americanos não concordaram com ele. Advertiram, que numa ordem lógica, podia ter razão, mas era-lhes impossível impossível proceder como Jaspers lhes sugeria.

Em primeiro lugar, porque o povo americano repudiava toda a forma de administração colonial e a proposta do filósofo, quisesse ele ou não, seria interpretada dessa forma.

Em segundo lugar, como apontou Jaspers na sua Autobiografia, "porque os russos o tomariam como um exemplo de administração ditatorial e de seguida aproveitariam para fazer o mesmo na Alemanha Oriental, mas com outros propósitos e de forma muito pior". Jaspers nunca se resignou aos factos consumados. Jamais considerou que neles radicaria a solução do problema.

Com o decurso do tempo, as circunstâncias pareceram reforçar a validade do seu diagnóstico. A convicção de que na Alemanha se havia realizado uma transição superficial do autoritarismo à democracia acompanhou toda a sua vida e determinou o facto de se radicar na Suiça, assim como a sua renúncia à nacionalidade alemã.

Jaspers não acreditava na recuperação do seu país, a menos que, tivesse lugar uma renovação substancial da sensibilidade política. Quando o auge económico dos pós-guerra induziu a falar de um "milagre alemão", Jaspers não juntou a sua voz ao coro festivo que dava por cumprida a transição para a vida democrática.

Pelo contrário redobrou as suas advertências e, uma vez mais, tornou público o seu desacordo. O êxito do capitalismo, numa ordem material e isolada, nada significava para ele como indício de vitalidade democrática. Era imprescindivel que esse êxito se inscrevera num marco espiritualmente maduro, se se queria falar de progresso.

A democracia, assegurava muito mais que bons negócios. Ela constitui o fundamento ético e metafísico da convivência e do trabalho. Implica contar com um Estado consciente da sua necessária sujeição ao princípio que estabelece a autonomia primordial da pessoa com respeito a toda a forma de poder político.

O homem é livre; sempre mais livre do que pretende qualquer das etiquetas interessadas em o rotular. Mas essa liberdade, longe de ser um atributo do qual ele dispõe, é uma tarefa que o convoca, um desideratum da sua acção. Um verdadeiro Estado tem de ser um Estado assente na compreensão da liberdade pessoal concebida como tarefa. Resguardará o seu sentido e garantirá a defesa do seu valor, em todas as suas decisiões. Jaspers partiu sempre da ideia de que o homem manifesta-se como tal, quando busca transcender-se, antes que realizar-se.

O homem ávido de trascendência trata de escapar-se incansavelmente à sua sujeição, ao fragmentário, à idolatria em qualquer das suas formas, ao dogmático concebido como o que inscreve a verdade no terreno do indiscutível e definitivamente assentado. Esta sede de trascendência traduz-se na ânsia de convivência equitativa e na abertura a uma realidade que supera o homem como verdade sempre inabarcável e, só como inabarcável, discernível por parte do espírito. Dessa verdade e desse enigma que o excedem e por sua vez o manifestam, o homem deve aprender a descobrir-se como possível expressão mediante a cultura da consciência da singularidade.

Decisivo, nessa conciência, é a presença do próximo. Esse que se faz ver, para que o reconheçam na sua alteridade; nessa alteridade que, por sua vez, ele deve reconhecer em mim para que possamos identificar-nos. É mais que tudo, que pelo seu intermédio como tem de manifestar-se perante mim essa realidade sem fronteiras ao que Jaspers chama "o incondicionado".

.Corresponde, ao Estado expressar e proteger, preservar e alentar a concretização desses valores que não se originam nele, nem equivalem a ele, mas que só ele pode socializar. A sua função é, portanto, executiva e não ontológica.

Conceber o Estado como instância suprema e criadora dos valores primordiais implica cair nas piores formas de fanatismo, da arbitrariedade e da incomprensão do homem como ser livre. Tal é, o julgameno de Jaspers, do que ocorreu durante o III Reich e o que para ele, representava o mundo soviético.

Jaspers tratou de dar a entender que podía encontrar-se um novo ponto de partida para Alemaha, depois da derrota do nazismo. O ano de 1945 abria, segundo ele, essa possibilidade. Para que a reconstrução da Alemanha resultasse viável era preciso que os alemães tomassem conciência da sua responsabilidade específica.

A fim de explicar o que entendia por ela, Jaspers recorreu ao conceito de "falta colectiva". A "falta colectiva" consistia na culpa de ter sobrevivido à catástrofe desencadeada pelo nazismo, sem ter feito o necessário para combatê-la. Responsabilidade de não ter-se jogado a vida na defesa dos ideais democráticos, de ter escapado ao massacre amparando-se no silêncio ou na indiferença.

Onde nos encontramos?, pregunta, quando outros eram aniquilados em nome de princípios que não compartíamos? Todo aquele que logrou preservar a sua vida calando, abdicando da conciência, emigrando, ou incluso adaptando-se às circunstâncias impostas pelo regime contraíram uma dívida moral para com o passado.

Essa dívida só pode saldar-se incidindo numa nova configuração do porvir. Cada cidadão alemão, afirma Jaspers, deve assumir a falta que implica ter escapado à aniquilação, infundindo aos seus actos a orientação requerida para que a Alemanha se encontre politicamente até à instauração de um Estado onde o ideal do reconhecimento "da dignidade dos individúos, seja o único valor que outorga sentido e grandeza à existência humana".

Teve lugar esse processo? Caminhou a reconstrução alemã até onde Jaspers havia proposto?

Quase meio século mais tarde, em 1992, Günter Grass demostraria, no seu Discurso da Perda, até que ponto as previsões de Jaspers não tinham sido ouvidas: "É que não cresceu erva que cure a tendência alemã à reincidência? Todavia, não somos capazes, danificados como ainda nos encontramos pelas últimas incursões em absoluto, de um tratamento civil, é dizer, humano, com os de dentro e com os de fora?"

Jaspers temia que se banalizara o horror e isso foi, no seu julgamento, o que não se evitou. Os imperativos da política não ouviram os da ética. O Estado fez-se cúmplice de uma claudicação moral inadmissível para o filósofo. Não obstante, e fiel à sua solidariedade socrática, o pensador não deixou de insistir na sua prédica. Nunca renunciou à sua concepção da política como ferramenta moral.

Quando a burguesia alemã reclamou a reunificação, em 1948, Jaspers alçou a voz outra vez para advertir que a chamada Alemanha livre ainda o não era, uma vez que não havia superado as componentes autoritárias que produziram a ascensão do nazismo.

Verificando-se a reunificação naquelas condições, potenciar-se-iam duas forças idênticas na sua incapacidade para suster o ideário democrático. Quando, finalmente e muito depois, a reunificação teve lugar, os seus temores pareceram perdurar nas palavras do Discurso de Günter Grass: "Os cidadãos da R. D. A., esses alemães que têm levado a pior parte, tiveram que pagar, pelo que não pagaram os cidadãos da República Federal. Não tiveram a sorte de poder optar pela liberdade ocidental. Não fomos nós que tivemos que suportar por eles, mas sim eles por nós, a carga principal da guerra que perdemos todos como alemães. Na compreensão de todas estas situações, ao cair o Muro de Berlim, teria de dar-se preferência. Essa é a dívida que tinhamos para com eles, e em vez de pagarmos, fomos pô-los debaixo de tutela".

O Estado-Nação nada podia representar para Jaspers, en termos de autênticos valores humanos, se não se via a sí mesmo, como um modo particular ou específico de dar sustento e forma aos ideais universalistas de justiça e convivência entre os homens. Jaspers considerava indispensável aspirar até à constituição de uma sociedade planetária que se fundara na consideração das particularidades históricas e que se tenha valido destas para levar a cabo a sempre perfectível realização do projecto de encontro solidário entre os povos.

Não estimava possível chegar a ser deveras alemão, francês, italiano ou português, se o esforço de constituição nacional não respondia, no essencial, ao ansiar concretizar de um modo próprio, específico, essa vontade comum de humanizar-se sem cessar, numa convivência sem fronteiras ideológicas. Jaspers, que confiava num humanismo apartidário, queria a cada cultura reconhecendo-se como parte de uma verdade que não se esgota em nenhuma das determinações que toma e que, em uníssono, não pode prescindir de nenhuma delas para dar-se a conhecer.

Ao abordar de forma directa e central a questão do próximo, Jaspers evidência, por demais, uma surpreendente proximidade com as proposições de Martin Buber, que lutou incansavelmente pelo recononhecimento recíproco entre palestinos e israelitas. De igual modo, o seu pensamiento liga-se, a este respeito, com o do filósofo católico Gabriel Marcel e, também, com os enunciados centrais, e tão judeus, de Emmanuel Levinas.

Sem subestimar o ontológico, Jaspers empenhou-se em mover o centro problemático da filosofia até ao cenário da ética. Há, para ele, exigências "éticas eternas" que não podem deixar de ouvir-se sem vulnerabilizar a especificidade do humano. O homem, afirma, é antes de mais um ser aberto à conquista do ético, na sua conciência e na sua condcta.

Jaspers raciocinava à escala mundial e estimava que, se os homens seguiam empenhados em desconhecer a sua unidade como espécie e a exigência de solidariedade que ela implica, terminariam aniquilando-se sem remédio. Se hoje vivesse, enquadrar-se-ia seguramente ao lado dos que lutam por impedir que a globalização esgote o seu sentido na mera uniformidade. É provável que os centros de poder do presente, esses que se empenham em homologar a democracia ao êxito corporativo, não poupariam esforços por silenciá-lo, como ocorreu no seu tempo.

 

A culpa segundo Karl Jaspers

Segundo Karl Jaspers há quatro classes de culpa: a culpa criminal, a culpa política, a culpa moral e a culpa metafísica.

A culpa criminal interessa aos acusadores, e só pode ser julgada em Tribunal.

A culpa política afecta aos que exercem cargos, ocultam crimes, mas também aos que ostentam o poder que aqueles deixaram vagos, pois por ocupar os postos daqueles que são culpáveis politicamente devem reparar o dano que eles praticaram, oferecer indemnizações e pedir perdão.

A culpa moral mancha todos os que dissimulam normalidade diante da barbárie, os que consentem que nada do que passa tem que ver com eles: é uma culpa atroz que afecta a própria conciência, e é a própria conciência a encarregada de decidir o castigo que corresponde a cada um.

A culpa metafísica surge da desesperação que se sente, da mais funda impotência diante das ofensas sufridas por outros, o dano irreparável que não pode submeter-se ao esquecimento, e essa culpa metafísica não vem a ser outra que a certeza de que a barbárie cometida não será esquecida.

Por isso, não é tanto a culpa como vergonha, a mesma classe de vergonha que os soldados russos sentiram ao libertar Auswitchtz diante da visão das vítimas; aqueles homens reduzidos a esqueletos andantes, essa vergonha que afecta todo aquele que detém nítida conciência de que os responsáveis de uma barbárie pertencem ao seu mesmo género.

Neste tipo de culpa metafísica ou de vergonha incorrigível que nos impulsiona a sair do cinema depois de ver a série de documentários sobre o Holocausto recompilada em Os últimos días , filme financiado pela Fundação Shoah. São cinco histórias de sobreviventes dos campos de extermínio, mas esses cinco testemunhos, escolhidos entre as 50000 entrevistas que se realizaram, apenas servem para oferecer imágens de um inferno que temos de ampliar. Elie Wiesel opunha-se a que se realizassem filmes sobre o Holocausto porque nenhum filme podia oferecer uma imagem real do tamanho daquele inferno. É certo que nenhuma peícula pode alcançar esse grau de realismo, porque películas como Os Últimos Días, que seleciona um mínimo elenco de vítimas, são já irresistíveis para que não possamos submeter a nossa imaginação a um exercício tão terrorífico.

Saímos culpados do cinema, se é difícil livrar-se dessa sensação angustiante que considera a nossa vergonha. Tratamos de satisfazer-nos com um pouco de serenidade pensando que a utilidade essencial de filmes como Os Últimos Días consiste em refrescar a memória de quem assume que «aquilo» nunca mais voltará a repetir-se, mas basta ligar a televisão para que a realidade dê um bofetão com imitações de pequena escala da grande tragédia do século XX.

O que no presente, sucede na Chechénia, na Libéria, no Congo, por exemplo, sem que a comunidade política internacional mova un dedo. Mas para que serve esse estado de culpa metafísica em que nos submergem documentários como Os Últimos Días? Uma das narradoras assegura no filme que Quando saímos do campo de concentração jurei a mim mesma que criaria uma família que em vez de odiar celebraria o milagre da vida humana. Quantos de nós temos celebrado o milagre da vida humana?

 

Em conclusão

Karl Jaspers, foi um dos fundadores do existencialismo. A sua obra, composta por mais de trinta livros, influenciou a teologia, a psiquiatria e a filosofia do século XX. Jaspers estudou direito e medicina e recebeu o seu doutoramento na Universidade de Heidelberg. Ensinou psiquiatria na Universidade de Heidelberg desde 1916. Tendo entrado no campo da filosofia, ocupou a cátedra de filosofía desde 1937. Jaspers, cuja mulher era judía e que rejeitou sem paliativos as autoridades hitlerianas, como dissémos, não pode ensinar durante a maior parte do período em que Hitler esteve no poder. Em 1948 aceitou uma cátedra de filosofia em Basileia, na Suiça.

Na sua primeira obra, Psicopatologia Geral (1913), Jaspers denunciou as pretensões científicas da psicoterapia rotulando-as de enganosas e deterministas. Mais tarde publicou Psychologie der Weltanschauungen (Psicologia das Concepções do Mundo, 1919), um trabalho muito importante para catalogar as diferentes atitudes diante da vida.

Na sua principal obra, Filosofia (três volumes, 1932), Jaspers na sua visão da história da filosofia aborda os seus principais temas, identificando a filosofia com o pensmento filosófico em si mesmo, não com as conclusões a que possa levar. O seu ideário nasce de um esforço para explorar e descrever as margens e os limites da experiência. Empregou o termo do Das Umgreifende (o abarcável) para referir-se aos limites últimos do ser, o horizonte indefinido no qual pode desenvolver-se qualquer experiência objectiva ou subjectiva e que não pode comprender-se por vias racionais. Outra obra importante é Existenzphilosophie de 1938; Filosofia da Existência). O termo Existenz refere-se à experiência indefenível da liberdade e a possibilidade que constitui a verdadeira essência de ser para quem é consciente do abarcável ao enfrentar-se a situações limite como o azar, o sofrimento, o conflito, a culpabilidade e a morte. Jaspers também escreveu com frequência sobre a ameaça que a ciência moderna e as instituições políticas e económicas modernas levantam para a consecução da liberdade humana. Entre os seus escritos políticos está a questão da culpabilidade alemã de 1946.

Jaspers morreu em 20 de Fevereiro de 1969 em Basileia.

Com a morte de Karl Jaspers o mundo perdeu uma das grandes figuras intelectuais do Século XX. A sua obra imensa influiu em todas as áreas da cultura, a sua herança moral e inspiradora não menos que o seu trabalho erudito: apreço profundo pelas vias racionais; veneração pela liberdade e diálogo; paixão pela investigação e o avanço do conhecimento; religiosidade profunda, ainda que radicalmente depurada; humildade exemplar na aceitação de uma "culpa metafísica" pelos acontecimentos da Alemanha de Hitler "podemos buscar a morte cuando os crimes se tornaram públicos. Preferimos permanecer vivos sobre o débil ainda que, (lógico argumento) a nossa morte não teria ajudado a ninguém".

Mas sobretudo, a sua obra é um monumento à racionalidade humana, ou melhor à aspiração do homem para lograr a racionalidade. A sua luta intelectual é a luta da razão "contra os seus inimigos no nosso tempo (segundo o revelador título de um dos seus livros). A sua reacção contra o marxismo, o nazismo, a psicanálise e pansexualismo, e outras doutrinas pseudocientíficas da época é a forma principal da sua cruzada em prol da razão. A sua filosofía é um NÃO a todo o dogmatismo que pretenda possuir toda a verdade, pois a verdade só se mede no diálogo, na comunicação e o filosofar desde posições historicamente limitadas.

Podemos chamar a Jaspers filósofo do eucumenismo. A sua grande empresa é a busca de uma philosophia perennis como integração das verdades parciais de todos os sistemas filosóficos. Para Jaspers, a razão é uma só, com o desejo de comunicação ilimitada; verdade sem comunicação é o mesmo que falsidade, pretensão de domínio de todo o ser humano desde uma das suas pequenas partes. Dizia Deus eterno, tem a visão da verdade completa. Os homens históricos, buscam a verdade de forma difícil na comunicação. Os obstáculos da comunicação são os obstáculos da verdade. A razão é o âmbito dessa comunicação ilimitada, cuja força motora é o amor que aproxima as pessoas e as dispõe ao diálogo.

Aceitar que estamos limitados e não podemos coincidir numa só verdade fruída não quer dizer a perdição na desintegração intelectual. Para ele a origem era o Uno", ainda que no presente nos seja inacessível; desde essa origem somos chamados à sua reconstituição. A verdade Una esquecida, impossível de restabelecer completa no tempo, faz-se presente, sem embargo como movimento que leva à comunicação. Tão pouco o homem individual pode tornar-se melhor fragmentariamente: o fundamento do carácter é a unidade do princípio interno da conduta. Unidade por comunicação entre os homens e unidade por integração dos distintos aspectos da personalidade. O ideal jasperiano de saúde para a sociedade e para o individúo.

O toque existencial da sua ideia de racionalidade é que a razão não a considera como acto assegurado. É um processo de conquista permanentemente renovado. "A razão não existe por natureza, é exclusivamente fruto da decisão". A razão não sobrevêm espontaneamente. Surge da liberdade e é tão susceptível de extinguir-se como a liberdade. Daí que nos seja pedido não deixá-la perecer, não permitir que caia debaixo do ataque dos dogmatismos. O homem não é um ser racional, faz-se de racional, cada vez mais, na existência concreta de cada dia.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 15.08.2003
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